Não há prisão como esta casa, sem paredes ou grades, sem guardas, sem câmaras de vigilância.
O perigo é tão grande lá fora que todos nós, prisioneiros de olhos abertos, permanecemos encobertos neste fumo onde os raios de sol só chegam filtrados, as vozes soam a ecos e o futuro é este presente repetido.
Há sempre aqueles dois ou três que tentaram evadir-se (ignorando os apelos desesperados da consciência e da auto-preservação) e que regressaram de alma derretida, cegos da luz brilhante, agora encolhidos no seu frio quadrado de mosaico.
Lembro-me de ser bailarina neste fumo negro, de achar que era parte dele e de o respirar como num último fôlego. Mas o fumo não traz verdade. Traz apenas consolação.
Amanhã é o meu dia de saltar da cortina de vapor preto e expor a minha alma às altas temperaturas.
Se eu derreter por favor relembrem-me como a bailarina da luz.
sábado, 14 de abril de 2012
sábado, 3 de março de 2012
Parque de estacionamento
Fraco, ofegante,
Escorres tu e a memória.
E eu escuto, penosa
A tua triste história.
Nas minhas costas nuas
A tua faca, cravada.
No eco negro das ruas
Não me resta nada.
És o muro baixo e áspero
Do estacionamento
Onde não houve conforto
Para o meu lamento.
Dos gritos ainda presos
No cruel e vil betão
Relembro cada sílaba,
olhos vazios, a cor do chão.
Escorres tu e a memória.
E eu escuto, penosa
A tua triste história.
Nas minhas costas nuas
A tua faca, cravada.
No eco negro das ruas
Não me resta nada.
És o muro baixo e áspero
Do estacionamento
Onde não houve conforto
Para o meu lamento.
Dos gritos ainda presos
No cruel e vil betão
Relembro cada sílaba,
olhos vazios, a cor do chão.
domingo, 12 de fevereiro de 2012
Suficiente
As personagens que eu criei para mim própria atormentam-me.
A amiga, a namorada, a filha, a profissional, a cidadã - todas elas me devoram devagar, mastigam cada pedaço da minha individualidade e engolem-na ruidosamente para o abismo das suas entranhas.
Acreditem, eu já não me lembro de mim. Doem-me os braços de tentar mergulhar profundamente no oceano da felicidade, do sucesso, do amor, da realização pessoal e nem um metro desci. Será possível que alguns de nós vivam anos simplesmente a boiar na água salgada?Os cabelos crespos de sal e a garganta dorida de gritar. Noite e dia. Verão e Inverno.
Lá em baixo os peixinhos nadam nos recifes de coral. Peixinhos que já foram pessoas, que mergulharam e harmoniosamente desceram até ao fundo do mar, construíram uma casa, tiveram filhos, estabeleceram as barbatanas como raízes e agora dizem-me um adeus de bolhinhas e caudas coloridas.
A amiga, a namorada, a filha, a profissional, a cidadã - todas elas me devoram devagar, mastigam cada pedaço da minha individualidade e engolem-na ruidosamente para o abismo das suas entranhas.
Acreditem, eu já não me lembro de mim. Doem-me os braços de tentar mergulhar profundamente no oceano da felicidade, do sucesso, do amor, da realização pessoal e nem um metro desci. Será possível que alguns de nós vivam anos simplesmente a boiar na água salgada?Os cabelos crespos de sal e a garganta dorida de gritar. Noite e dia. Verão e Inverno.
Lá em baixo os peixinhos nadam nos recifes de coral. Peixinhos que já foram pessoas, que mergulharam e harmoniosamente desceram até ao fundo do mar, construíram uma casa, tiveram filhos, estabeleceram as barbatanas como raízes e agora dizem-me um adeus de bolhinhas e caudas coloridas.
E eu aqui estou, a pele das mãos enrugada, os ossos gelados, a roupa colada ao corpo, prestes a desistir de nadar.
A combater estoicamente a vontade de partir todos os objectos frágeis, romper todos os tecidos, despir-me de todas as roupas e gritar este mundo e o outro pela janela.
Num canto, a frase que repetitivamente me assalta: "o meu melhor não é suficiente, o meu melhor não é suficiente, o meu melhor não é suficiente".
quinta-feira, 29 de dezembro de 2011
Metamorfose
Eu era a lagarta frágil e tímida que se demorava nos veios frescos da folha.
Roliça e redundante no universo verde daquela floresta.
Guiada pelo instinto seguia o percurso cintilante das gotas de orvalho até ao inevitável abismo do vértice vegetal.
No fim do caminho a gigantesca disputa, os meus pequenos olhos esbugalhados perante a atmosfera infinita.
Iniciei o árduo trabalho de me enrolar em seda. Rodopiei até à exaustão numa dança fervorosa e geneticamente determinada.
No fim eu era apenas um corpo amorfo e imóvel à espera que os dias passassem. Nem morta, nem viva, no limbo da existência, esqueci quem era e transformei-me em algo diferente.
Borboleta!
Borboleta!
sábado, 10 de dezembro de 2011
Sol de Inverno
É quase Inverno mas o sol brilha.
Hoje, como tantas outras vezes, o tempo assemelha-se ao meu estado de espírito.
Estou desiludida e nostálgica. O fluxo de sentimentos interrompido, a alma gelada como o clima lá fora. Mas, na ressaca da grande decisão, estou aliviada. Um peso enorme que desapareceu e um holofote de raios de sol que agora me ilumina amenizam o chão coberto de neve e as estalactites de gelo que pendem dos vértices do meu corpo.
Não me parece que houvesse Amor naquilo que eu era até ontem, entre a espada e a parede, humilhada e traída mas, ainda assim, a tentar encontrar uma migalha que salvasse a relação.
No início havia um bolo grande e cheio de afecto. Havia. Depois alguém o devorou sem remorsos deixando apenas estas migalhinhas milimétricas que eu, estupidamente, lambi do chão sujo.
Pelo menos agora, que não resta nada, não há desculpa para não começar de novo.
Hoje, como tantas outras vezes, o tempo assemelha-se ao meu estado de espírito.
Estou desiludida e nostálgica. O fluxo de sentimentos interrompido, a alma gelada como o clima lá fora. Mas, na ressaca da grande decisão, estou aliviada. Um peso enorme que desapareceu e um holofote de raios de sol que agora me ilumina amenizam o chão coberto de neve e as estalactites de gelo que pendem dos vértices do meu corpo.
Não me parece que houvesse Amor naquilo que eu era até ontem, entre a espada e a parede, humilhada e traída mas, ainda assim, a tentar encontrar uma migalha que salvasse a relação.
No início havia um bolo grande e cheio de afecto. Havia. Depois alguém o devorou sem remorsos deixando apenas estas migalhinhas milimétricas que eu, estupidamente, lambi do chão sujo.
Pelo menos agora, que não resta nada, não há desculpa para não começar de novo.
segunda-feira, 10 de outubro de 2011
O fim do dilema
O fim do dilema é profundamente doloroso e estranhamente libertador.
Anos passados a hastear bandeiras de valores, confiança e respeito não podem ser em vão.
O contexto não justifica tudo. Reside em nós a derradeira decisão. Agarrar-me-ei a esta convicção até que as forças me falhem e o tempo me consuma a sanidade.
A vida continua.
Anos passados a hastear bandeiras de valores, confiança e respeito não podem ser em vão.
O contexto não justifica tudo. Reside em nós a derradeira decisão. Agarrar-me-ei a esta convicção até que as forças me falhem e o tempo me consuma a sanidade.
A vida continua.
quinta-feira, 25 de agosto de 2011
Dilema
Hoje faço uma pergunta.
É para vocês porque as minhas possibilidades de resposta já se esgotaram, consumiram os meus sorrisos, transformaram aquilo que podia ser bom numa constante tortura.
O que fazer quando amamos alguém cujo passado nos perturba?
É para vocês porque as minhas possibilidades de resposta já se esgotaram, consumiram os meus sorrisos, transformaram aquilo que podia ser bom numa constante tortura.
O que fazer quando amamos alguém cujo passado nos perturba?
Ainda que o tempo tenha passado e tudo o que aconteceu de condenável esteja longínquo. Ainda que não fizéssemos parte das histórias quando elas aconteceram. Ainda que a expressão dele se assombre quando se mencionam os factos decorridos.
Já tentei esquecer mas não consigo. Vislumbro tudo como se acontecesse diante dos meus olhos. Quero acreditar na pessoa que tenho ao meu lado mas há sempre uma sombra, um passado que apaga os contornos da minha confiança e que ameaça projectar-se no futuro. Mas uma sombra sem lógica, sem fundamento.
O que fazer para viver plenamente no presente e esquecer o que deveria estar morto e enterrado?
Já tentei esquecer mas não consigo. Vislumbro tudo como se acontecesse diante dos meus olhos. Quero acreditar na pessoa que tenho ao meu lado mas há sempre uma sombra, um passado que apaga os contornos da minha confiança e que ameaça projectar-se no futuro. Mas uma sombra sem lógica, sem fundamento.
O que fazer para viver plenamente no presente e esquecer o que deveria estar morto e enterrado?
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